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O EaD não é o problema. É o revelador.

  • Foto do escritor: Crátilo
    Crátilo
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

O decreto do ano passado proibiu a oferta de licenciaturas no EaD para todas as instituições, sem distinção de desempenho. A premissa era direta: a modalidade a distância compromete a qualidade da formação de professores. A primeira edição do Enade das Licenciaturas testou essa premissa. E os dados contam outra coisa.


No EaD, medido pela proporção de concluintes em cursos com faixa satisfatória, as instituições comunitárias e confessionais alcançaram 70,1%. As públicas, 69,6%. Em ambos os casos, um patamar próximo ao que essas instituições entregam no presencial. Já os grandes grupos ficaram em 7,4% — o menor índice de todos os segmentos.


A mesma modalidade. Resultados que não cabem na mesma frase.


Quando isso acontece, a palavra “modalidade” deixa de explicar o resultado. O que explica é a governança.


A média que escondeu o essencial


Há um dado que torna isso impossível de ignorar. Os grandes grupos concentram 53% dos concluintes de licenciatura no EaD e respondem por 62% dos formados em cursos abaixo do padrão esperado.


Pouco mais da metade dos concluintes. Quase dois terços dos formados em cursos insatisfatórios. A média de EaD que sustentou o debate público não é a média da modalidade. É a média puxada por um número pequeno de mantenedoras — meia dúzia de grupos que operam em escala massiva e arrastam o conceito da modalidade inteira para baixo.


A régua existia. E foi aplicada.


A primeira edição do exame estreou um critério mais exigente: o conceito do curso passou a medir quantos concluintes atingiram o Padrão 1 de proficiência. Um critério binário por aluno, sem compensação por corpo docente ou infraestrutura.


Esse critério já distingue, com precisão, os diferentes patamares de desempenho. Mostra que a instituição confessional que registrou 70% no EaD está em um lugar diferente do provedor que registrou 7%. A restrição, no entanto, foi linear — alcançou da mesma forma quem reprova metade dos concluintes e quem aprova nove em cada dez.


Onde a régua linear toca o acesso


Há uma consequência que vai além da qualidade. No Norte e no Centro-Oeste, 74% e 72% dos ingressantes no ensino superior chegam pela via do EaD. São as regiões de maior dispersão territorial e menor oferta presencial do país. Para o estudante que trabalha o dia inteiro e mora longe do campus, o EaD não é conveniência. É a única porta.


Restringir a modalidade sem ampliar o presencial fecha o acesso exatamente onde ele já é mais estreito — inclusive para as instituições regionais que ofertavam EaD com desempenho consistente.


O que isso significa para quem dirige uma IES


O padrão que emerge dos dados é claro: governança consolidada e identidade institucional explicam o resultado melhor do que modalidade, porte ou natureza jurídica. Instituições com projeto acadêmico organizado e propósito definido entregam resultado consistente — no presencial e no EaD, em qualquer região.


Isso desloca o debate. O problema nunca foi o setor privado, nem o EaD. Foi tratar realidades distintas como se fossem uma só.


Para o gestor que dirige licenciaturas, o relatório do IPGC oferece o mapa por estado, por área de avaliação e por organização acadêmica — a base técnica para se posicionar com solidez, independentemente do rumo que a regulação venha a tomar.



 
 
 

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