• Gabriela Mangelardo

Transformação digital: amplitude e possibilidades

Quando se fala sobre transformação digital é muito comum surgirem os seguintes referenciais: invenções tecnológicas - como robôs e carros autônomos, cenas de bits e bytes escorregando pela tela (ops, acho que entreguei meu vício de correlacionar vida real e cinema - alguém mais lembrou de Matrix?!), ou supercomputadores respondendo todas as nossas dúvidas e necessidades.


Outra referência muito comum é pensarmos nos empregos do futuro ou nas atividades humanas que serão, inteiramente, substituídas por máquinas e softwares avançados. A sensação de futuro torna-se inerente ao termo, mas algo do presente nos chama e o tempo dedicado a pensar em transformação digital no presente desaparece rapidamente em meio a todas as tarefas diárias.


Entretanto, já vivemos esse futuro e com a pandemia esse processo foi acelerado em muitas áreas, principalmente na educação. Do ensino básico ao ensino superior - todos os atores envolvidos nesse segmento viram-se obrigados a acelerar seus processos.


Aqui falamos das práticas ligadas ao ensino digital, seja no modelo híbrido ou totalmente a distância (EaD), mas também podemos mencionar o processo de adaptação tecnológica que as instituições estão realizando para manterem-se atualizadas em relação às novas tecnologias de informação e comunicação (TIC’s) e metodologias de ensino e aprendizado.


Fato que - sob a ótica do ensino e do aprendizado - foi um grande salto e atendeu inúmeros anseios dos alunos, principalmente aos que pertencem ao grupo de nativos digitais com idade entre 18 e 30 anos e que demonstravam há algum tempo, descontentamento com a maneira que as instituições de ensino transmitiam o conhecimento.


Pesquisas com jovens brasileiros sinalizavam, desde 2013, desconexão entre o que os jovens esperam e o que as instituições de ensino superior entregam. Cerca de 41% dos jovens, já não acreditava que a formação após o ensino médio ampliaria suas oportunidades de trabalho (McKinsey, 2013).


Um dos principais desafios das instituições de ensino superior, na atualidade, nas eras AC e DC [antes e pós-Covid-19, desculpem o trocadilho] é acompanhar todas as mudanças sociais com a mesma velocidade. Com estruturas grandes e pesadas, quando comparadas às novas organizações que surgem mais enxutas de estrutura e modelos de gestão, as instituições de ensino hoje buscam reinventar-se por meio da transformação digital para não se perderem no tempo.


Por esses e muitos outros motivos, pensar a transformação digital de forma integrativa a todas as estratégias das organizações é uma das principais metas das organizações que estão conseguindo se destacar. Dentre as que estão alcançando êxito, podemos listar alguns padrões: utilizam a inteligência das máquinas, as vantagens da automação e implementam abordagens ágeis para aprimorar a entrega de produtos, serviços e operações.


No entanto, o cenário possui alguns abismos, enquanto algumas IES voam em busca do mais disruptivo e da quebra de paradigmas, ainda temos que considerar o fato de outros estarem começando nessa caminhada. Um processo que nem sempre ocorre de maneira sistêmica: ainda é possível verificar algumas instituições concentrando mais esforços na arquitetura digital de seus processos administrativos internos e outras direcionando todos seus esforços na inclusão de novas tecnologias educacionais, não necessariamente trabalhando as duas frentes de maneira integrada.




Mas o que engloba a Transformação Digital?


Um recente estudo traz uma relação de elementos que demonstram a amplitude que a transformação digital pode e deve alcançar nas empresas:


Amplitude da transformação digital:

(McKinsey & Company, 2021)

  • Experiência do cliente multicanal: redesenhar e digitalizar de ponta a ponta a jornada dos principais clientes.

  • Marketing e precificação digitais: gestão de receitas, precificação de cada negócio segundo a dinâmica de promoções, vendas cruzadas e upselling.

  • Digitalização das vendas: vendas digitais, eficácia em vendas remotas.

  • Novas propostas digitais: criar novos fluxos de receitas criando propostas digitais e utilizar tecnologias de inteligência artificial de próxima geração para reduzir custos.

  • Cadeia de suprimentos e procurement: redesenhar e gerenciar operações digitalmente para melhorar a segurança, entrega e custos.

  • Operações de próxima geração: promover mudanças radicais na eficiência por meio da digitalização, inteligência artificial, advanced analytics e abordagens ágeis e enxutas.

  • Arquitetura digital: criar arquitetura digital combinando APIs (interfaces de programação de aplicativos e containers.

  • Transformação de dados: unificar a governança e a arquitetura dos dados para permitir a advanced analytics de próxima geração.

  • Modernização do sistema principal: por meio de refatoração [aprimoramento do código] ou substituição da plataforma.

  • Nuvem e DevOps: migrar aplicativos para nuvem híbrida e/ ou software como serviço (SaaS) e implementar operações de desenvolvimento de software e TI (DevOps).

  • Talentos e capacidades digitais e analíticas: obter novos talentos necessários e desenvolver capacidades em escala.


Quais os desafios e tendências?


A quantidade de elementos nesse cenário exemplifica bem a amplitude da temática e o tamanho do desafio a ser enfrentado pelas organizações, principalmente as instituições de ensino, sejam elas públicas ou privadas, de ensino básico ou superior. Algumas tendências já apontam os dilemas que os modelos de gestão mais tradicionais terão que enfrentar para conseguirem diferenciar-se dos demais.


Entre as mais evidentes estão:

  • a interconectividade - onde todos setores se comunicam e há livre movimentação de informações - gerando um modelo disruptivo e questionamentos sobre as hierarquias dentro das instituições;

  • operações com custos mais baixos, principalmente as que buscam atividades mais escaláveis, favorecendo novas formas de entrada de recursos;

  • automação e utilização da inteligência artificial para reduzir o mecanicismo das práticas as tornando mais customizáveis;

  • Mudanças sociais que caracterizam cada geração, principalmente as posteriores à geração Z - oportunizando novas formas de aprendizado e a priorização de atividades mais variadas com foco no impacto social e na sustentabilidade.



A transformação é digital, mas o relacionamento ainda é humano


Cenário complexo que exige movimento à reinvenção e grande consciência sobre os valores fundamentais de cada instituição. Planos de desenvolvimentos institucionais e todas as suas estratégias precisam ser revisitadas a fim de compreender e identificar claramente informações como “quem somos”, “como atuamos” e “como vamos crescer” para serem utilizadas como parâmetros norteadores nas tomadas de decisões.


Mas e as máquinas e as cenas de bits de bytes que deveriam estar entre os parágrafos desse texto sobre transformação digital? Continuam como antes, apenas em nosso referencial imagético, a transformação digital já está ocorrendo - a vivenciamos em todos os cenários e sua amplitude certamente nos permitirá alcançar lugares inimagináveis, até então.


O que não muda é que por trás de todas essas tecnologias e estratégias, o ativo principal está no ser humano, na humanização dos processos e no real entendimento das necessidades e anseios de nosso público. Nossos valores fundamentais nunca pediram tanto para serem ouvidos - acho que já faz um tempo que eles entenderam que a experiência e amplitude da transformação digital vão levá-los mais longe.


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