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Análise Crátilo: ENAMED reprova cursos de excelência comprovada pelo MEC

  • Foto do escritor: Bruno Barreto
    Bruno Barreto
  • 28 de jan.
  • 10 min de leitura

A Educação Médica brasileira vive na última década seu período de maior expansão. Cursos de Medicina, antes exclusivos de grandes centros, hoje estão presentes em todas as regiões brasileiras, inclusive em locais de extrema necessidade de médicos. Nos últimos anos, a abertura de novos cursos e a ampliação de vagas atingiram patamares históricos, impulsionadas, dentre outros, por decisões judiciais e pelas diretrizes do Programa Mais Médicos. Esse movimento, embora responda a uma demanda por maior capilaridade no atendimento de saúde, trouxe consigo uma preocupação latente: como garantir que a velocidade da expansão não comprometa o rigor da formação? 


Tanto o setor educacional quanto a sociedade civil aguardam um sistema avaliativo capaz de dar conta deste novo cenário, oferecendo métricas confiáveis para um ecossistema cada vez mais complexo. É nesse horizonte que o ENAMED foi introduzido, mas a sua primeira edição levanta uma questão fundamental que precisa ser debatida com rigor técnico: será o ENAMED, da forma como foi desenvolvido até aqui, o instrumento apropriado para dar cabo desta necessidade?


A última semana foi marcada por uma intensa exposição do tema na imprensa e nos fóruns do setor. O ENAMED tornou-se a pauta central, mas o que vimos foi um cenário de interpretações desajustadas e, em alguns casos, permeadas por desinformação. A complexidade de avaliar a formação médica envolve múltiplos fatores — desde a infraestrutura laboratorial até a qualidade da preceptoria no internato — e reduzir essa análise a um único indicador discente pode distorcer a realidade acadêmica. É preciso separar o ruído da realidade, e isso só é possível através de uma análise orientada por dados e pela compreensão profunda da arquitetura regulatória brasileira vigente.


Relatórios Crátilo: transformando dados públicos em inteligência estratégica para o ensino superior


No Grupo Crátilo, nossa atuação é pautada por uma abordagem estritamente data-driven. Adotamos uma metodologia orientada por dados, com pesquisa contínua, diagnóstico preciso e análise preditiva para guiar decisões estratégicas e realinhar práticas de mercado. Nosso objetivo é transformar dados públicos em inteligência acionável para mantenedores, reitores e executivos, oferecendo leitura estratégica, comparabilidade e clareza para apoiar a tomada de decisão.


Para fundamentar o debate sobre o ENAMED, o Instituto de Pesquisa Crátilo construiu três relatórios técnicos. Estes documentos não são apenas compilações de números; eles foram desenhados para servir como fontes essenciais na formulação de políticas públicas e no entendimento da saúde do setor. Você pode acessar o conteúdo completo nos links abaixo:


  1. "Indicadores da qualidade da Educação Médica privada no Brasil": Consolida achados nacionais sobre desempenho discente, assimetria territorial e pontos críticos para governança. Link:https://www.instagram.com/p/DTxhfgVjgYQ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

  2. "Análise da Educação Médica nos Grupos de capital aberto": Recorte específico dos grupos listados em Bolsa, com leitura de desempenho, risco regulatório e implicações de gestão. Link:https://www.instagram.com/p/DT1AjbskYhQ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

  3. "Análise dos cursos de Medicina do Programa Mais Médicos no ENAMED 2025": Estudo focal com 52 cursos vinculados ao Programa, mapeando desempenho por organização acadêmica e território. Link:https://www.instagram.com/p/DT_PpW_kXXr/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==


Por que construímos estes relatórios? Nossa premissa metodológica reconhece a importância e o rigor diagnóstico necessários neste momento. As notas do primeiro ENAMED são, por si só, alarmantes e merecem todo cuidado na identificação de causas acadêmicas e organizacionais. Contudo, entendemos que o ENAMED é um indicador de desempenho discente e não um instrumento consolidado para impor sanções isoladas.


Adotamos uma abordagem sistêmica para oferecer visões nacionais e regionais, permitindo observar comportamentos regionais, categorias administrativas e porte sem analisar instituições de forma isolada. Acreditamos que, neste estágio, os elementos públicos não bastam para um julgamento aprofundado curso a curso. Essa opção reconhece a riqueza dos microdados do INEP, que servirão de base para nossas próximas entregas analíticas, sempre preservando a proporcionalidade e o contexto.


Lições setoriais: o que as análises iniciais da Crátilo revelam


As lições setoriais que extraímos são fruto direto das pesquisas realizadas pelo nosso Instituto e revelam possíveis caminhos de avanço para as IES privadas. O benchmark por natureza institucional mostra que instituições confessionais e comunitárias apresentaram um desempenho consistente, assemelhando-se, em diversos recortes, ao desempenho das universidades federais — fator que pode trazer insights acionáveis às demais IES privadas no país.


Nossos dados também apontam uma tendência clara na estrutura acadêmica: alunos de universidades exibem resultados superiores — acreditamos que devido a uma estrutura mais consolidada — enquanto a concentração de conceitos baixos é mais evidente em alunos de faculdades isoladas. O caminho de evolução para estas últimas pode passar pelo fortalecimento dos núcleos docentes estruturantes, qualificação da preceptoria e uma integração curricular orientada por competências.


A análise das discrepâncias regionais é um dos pontos mais sensíveis dos nossos relatórios. O Norte do país concentra a maior incidência de conceitos 1–2, enquanto o Nordeste reúne a maior concentração de risco nos recortes do Programa Mais Médicos. Em contrapartida, o Sul apresenta a melhor proporção de conceitos 4–5, e o Centro-Oeste destaca-se pela excelência no recorte Mais Médicos. Essas disparidades exigem direções de política e gestão muito específicas, como acordos robustos com redes assistenciais e investimentos direcionados em infraestrutura de prática. Os dados iniciais do ENAMED, evidenciam que um pais plural e de escalas continentais exigem políticas públicas com olhar regionalizado.


No recorte dos grupos de capital aberto, identificamos que 1 em cada 3 cursos privados de Medicina no Brasil é gerido por grandes grupos, mas apenas 11,2% deles atingem as notas máximas (4-5) na avaliação discente. O dado mais alarmante é que 58% desses cursos estão na faixa de 1-2, colocando 36 cursos sob risco imediato de medidas regulatórias (segundo os critérios vigentes e que discutiremos a seguir). A divulgação desses dados provocou quedas de até 6,7% em papéis do setor em um único dia, refletindo a precificação do risco regulatório.


Esse cenário evidencia que a qualidade acadêmica e a proficiência dos alunos deixaram de ser apenas métricas pedagógicas para se tornarem variáveis críticas de risco e ‘valuation’ no mercado de capitais, como tenho reforçado em minhas análises.

O benchmark da rede privada — que responde por 63% dos cursos de Medicina no país — mostra que o mapa do desempenho dos concluintes destes cursos varia drasticamente por categoria. Enquanto comunitárias e confessionais exibem 94,4% de conceitos satisfatórios (3-5), as privadas com fins lucrativos caem para 41,6%, e os grupos de capital aberto para 41,9%. Essa polarização de desempenho evidencia um Brasil desigual, onde coexistem modelos acadêmicos consolidados e ofertas com base estrutural mais frágil.


A discrepância regulatória: 100% dos cursos nota 1 no ENAMED têm conceitos máximos nas avaliações in loco


Um dos pontos mais críticos da discussão reside na discrepância regulatória que os dados do Instituto Crátilo evidenciaram. Identificamos um paradoxo alarmante: 70% dos cursos que obtiveram conceito 1 no ENAMED possuem conceito de curso (CC) 5 — a nota máxima de excelência — na avaliação in loco realizada por especialistas do Inep. Entre os cursos com ENAMED 1, não encontramos nenhum caso com CC 3; todos orbitam entre a excelência (4 e 5). A saber:


Dissonância entre o desempenho discente pontual e a excelência sistêmica aferida in loco por especialistas 


Esse dado expõe uma dissonância complexa. Um curso cujos estudantes apresentaram desempenho mínimo no ENAMED requer reflexão diligente, mas não é lógico caracterizá-lo como passível de medidas severas imediatas se este mesmo curso obteve conceito máximo (CC 5) na avaliação in loco. Atribuir sanções estruturais nestes casos contraria a hierarquia de evidências da Lei do SINAES e o princípio de proporcionalidade, confundindo um sinal pontual com um juízo definitivo sobre as condições reais de oferta.


Observamos uma prática preocupante: a utilização do ENAMED como parâmetro direto para medidas cautelares. Essa abordagem gera uma supervalorização do desempenho discente em detrimento de variáveis estruturais fundamentais, como o projeto pedagógico, o corpo docente e a infraestrutura — pilares pelos quais todos os cursos de graduação brasileiros eram avaliados até aqui. Ao encurtar o devido processo avaliativo, cria-se uma assimetria regulatória onde cursos com excelência, atribuída pelo próprio MEC, sofrem sanções por um resultado isolado de prova.


A cronologia dos fatos também compromete a previsibilidade e a transparência. Com a primeira edição do ENAMED realizada em outubro de 2025, as notas técnicas centrais que definiram a metodologia e os cortes só foram publicadas em dezembro. Essa divulgação metodológica a posteriori reduz a segurança jurídica, especialmente considerando que o exame é obrigatório para a colação de grau e integra a nota de acesso à residência médica (ENARE). A periodicidade anual e a obrigatoriedade amplificam o peso de um único ciclo, reforçando a necessidade de multidimensionalidade antes de qualquer sanção.


Somado a isso, o próprio Inep reconheceu, via ofício, inconsistências na base de insumos do e-MEC, admitindo o uso de notas de corte divergentes das divulgadas em dezembro às IES. Embora o órgão afirme que o resultado oficial não foi afetado, ele abriu prazo para as Instituições entrarem com o recurso - eventuais retificações nas notas divulgadas podem alterar as classificações. Com aproximadamente 30% dos cursos classificados como insatisfatórios, o sistema flerta com um punitivismo baseado em uma única variável, ignorando o histórico de qualidade construído pelas IES e pelo próprio mecanismo regulatório construído desde a Lei do SINAES.


Critérios e avaliações precisam ser claros, estabelecidos e debatidos à exaustão. Elementos como nota de corte devem ser públicos e estáveis antes da aplicação. Romper o fluxo tradicional do SINAES e usar o ENAMED de forma isolada eleva o risco de decisões assimétricas e fere a segurança jurídica do sistema.


A convergência do setor: a voz das entidades e dos grandes grupos


Com a compreensão das divergências na divulgação dos dados e o peso das sanções, as entidades representativas têm manifestado posições densas e fundamentadas. A ANUP - Associação Nacional das Universidades Particulares ingressou com uma ação judicial questionando a discrepância entre as bases do e-MEC e os resultados divulgados à imprensa. A tese central é que uma edição inaugural exige consolidação técnica e transparência absoluta antes de qualquer efeito sancionatório. A associação pleiteia a prevalência dos dados oficiais e uma revisão rigorosa de critérios — como a inclusão indevida de alunos do 11º período e a necessária coerência entre ENAMED e ENARE — para preservar a segurança jurídica do sistema.


No mesmo sentido, ABMES e Semesp elevaram o tom do debate com críticas metodológicas contundentes. A ABMES esclarece que o ENAMED avalia o desempenho acadêmico, não a aptidão profissional, e repudia narrativas que sugerem riscos à saúde pública. A entidade destaca que, enquanto os índices por curso parecem baixos, a proficiência real entre os estudantes gira em torno de 70% a 85%, evidenciando um padrão de qualidade que foi obscurecido por critérios de corte comunicados apenas após a prova. Complementando essa visão, o Semesp aponta distorções graves na escala de conceitos (1 a 5), que adotou faixas não uniformes — como o conceito 1 abrangendo de 0% a 40% — agrupando realidades institucionais completamente distintas. Para ambas as entidades, a primeira aplicação deve ter caráter eminentemente diagnóstico, respeitando o direito ao registro profissional garantido pelo diploma.


A repercussão dos dados mobilizou os principais players do mercado, em declarações ao jornal Valor Econômico: A Afya, líder no segmento, adotou uma postura de cautela técnica, destacando que "segue na análise detalhada dos dados à luz dos esclarecimentos prestados pelo Inep" e reafirmando seu compromisso histórico com a seriedade e transparência nos indicadores de qualidade.


Já a Yduqs foi incisiva ao apontar que esta primeira edição do exame revelou "tantos pontos de fragilidade" que, em seu entendimento, os resultados divulgados "não refletem a realidade acadêmica oferecida" pelas suas instituições. No mesmo sentido, a Cruzeiro do Sul Educacional trouxe um dado que reforça o paradoxo apontado pelo Instituto Crátilo: a companhia informou que todos os seus cursos participantes no exame passaram por visitas in loco criteriosas do MEC, tendo sido avaliados com conceito máximo em todas as dimensões analisadas.


Repercussão das análises do Instituto Crátilo


Nossa autoridade técnica e o rigor do método Crátilo têm sido reconhecidos pelos principais veículos. Nos últimos 30 dias, nossos relatórios foram citados três vezes no jornal Valor Econômico. Mais do que apenas "olhar para números", nosso objetivo fundamental é organizar a informação com o máximo rigor técnico, transformando dados públicos em inteligência acionável para quem lidera instituições de ensino em todo o país. 


Entendemos que investir em pesquisa e dados não é um elemento acessório da gestão, mas sim a infraestrutura crítica de decisão, sendo também o caminho mais sólido para fortalecer políticas públicas e elevar os padrões de qualidade nacional. Por isso, seguimos atentos a cada nova divulgação, prontos para compartilhar atualizações com diagnósticos que sejam claros, comparáveis e plenamente atualizados.


Em dezembro de 2025, fomos citados na reportagem:


👉 "Após arrumar as finanças neste ano, grupos de educação vão priorizar margens em 2026"


Na última semana, fomos fonte principal em duas reportagens sobre o ENAMED:


👉 "Nos grupos de educação listados, 60% dos cursos de medicina tiveram notas insatisfatórias no Enamed"



Além do trabalho que conduzo no Instituto de Pesquisa Crátilo, minha visão é sustentada por duas décadas como executivo no setor educacional. Boa parte da minha trajetória profissional foi dedicada à construção de políticas e indicadores para melhorar a qualidade de cursos de graduação, tanto como pesquisador, avaliador do MEC e gestor. Quando fui coordenador de cursos, alcançamos o topo do ranking nacional: o de Publicidade e Propaganda como o melhor do Brasil (CPC 2012), e o de Jornalismo como líder na região Centro-Oeste nos CPCs 2009 e 2012. Como diretor acadêmico, conduzi o crescimento do IGC, com 79% dos cursos detendo notas 4 e 5 no CPC e o Centro Universitário da Grande Dourados entre os 10 maiores IGCs do país — cujo projeto de desenvolvimento institucional que conduzi foi finalista no Prêmio Santander Universidades (2013), entre mais de 1.000 projetos. Esses cases provam que o preparo para provas deve ser parte de uma estratégia de qualidade sistêmica, e não uma ação isolada.


O futuro da avaliação da educação médica: diretrizes e governança


O Grupo Crátilo reafirma sua posição técnica: o ENAMED ainda não atingiu a maturidade necessária para atuar como um instrumento regulatório isolado. Em nossa visão, o exame deve ser tratado como um termômetro do desempenho discente e um importante sinalizador de tendências, mas jamais como uma sentença definitiva sobre a qualidade sistêmica de um curso. Avançar com sanções severas contra cursos que detêm Conceitos de Curso (CC) 4 e 5 — as notas máximas de excelência atribuídas pelo próprio MEC — baseando-se exclusivamente no resultado do ENAMED, desafia a lógica regulatória e ignora a complexidade da formação médica.


Nosso caminho propositivo divide-se em dois horizontes temporais claros. No curto prazo, defendemos que o ENAMED funcione como um gatilho de monitoramento, orientando auditorias in loco direcionadas para identificar as causas das assimetrias. Já no médio prazo, após a consolidação de uma metodologia pactuada e transparente, as sanções devem ser aplicadas de forma proporcional, sempre fundamentadas em insuficiências estruturais comprovadas por um ciclo avaliativo completo, dentro do estabelecido pela Lei do SINAES.


Para os gestores e mantenedores, a recomendação da Crátilo é a adoção de uma governança baseada em evidências. É imperativo manter um dossiê técnico atualizado por curso, auditando resultados através de microdados e registrando manifestações formais diante de discrepâncias. O foco deve estar no saneamento acadêmico, fortalecendo a docência e a preceptoria onde houver maior concentração de conceitos 1 e 2. O ENAMED deve servir à revisão curricular, e não ser reduzido a um mero instrumento de verificação de oferta.


Finalmente, no campo das Relações com Investidores, é preciso entender que a qualidade acadêmica tornou-se um indicador material. O risco regulatório deve ser incorporado às narrativas de governança corporativa, pois a proficiência dos alunos agora impacta diretamente o valuation das companhias. 


O ENAMED 2025 inaugura uma oportunidade de elevar padrões, mas as decisões precisam respeitar a hierarquia do SINAES e a responsabilidade com a formação médica brasileira. Nossa missão permanece clara: entregar dados objetivos que subsidiem a gestão e o debate público com rigor técnico e segurança jurídica.


Se você gostaria de discutir como esse contexto impacta sua instituição, conecte-se comigo.



 
 
 

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